o sorriso é uma fratura exposta

Outro dia mesmo a minha psicóloga me olhou no fundo dos olhos e perguntou: E esse medo de ser feliz? Eu franzi o cenho e cruzei os braços, pensativa.
É que eu tinha muito medo de me apaixonar, sabe? É que eu era cética demais pra achar que podia dar certo, daí vivia enfiando defeito onde não tinha. Aí eu botava a culpa no mundo. Nas pessoas. Essa coisa de morrer de amor nunca foi a minha praia; pra mim, era tudo aos pouquinhos. Um passo desengonçado atrás do outro, uma coisa de cada vez. Eu tinha medo de cair. Na verdade, eu tinha medo que ninguém fosse me segurar. Aí eu comecei a fazer tudo de qualquer jeito, eu ficava com quem eu quisesse quando me desse na telha, eu bebia o que me davam, eu aceitava qualquer migalha de afeição me escondendo atrás de uma parede de indiferença. Ia me apaixonar pra que? Eu não queria ficar com medo, de novo. Mas outro dia mesmo eu juro que ouvi alguém perguntar: E esse medo de ser feliz? Eu ainda tinha medo. Eu tinha medo de acordar todos os dias sozinha (e eu acordava sozinha todos os dias).

(04.10.2011)

2 comentários:

  1. NOSSA!
    faleci só com o título
    e NOSSA!²
    mto mto lindo e profundo e
    identifiquei-me com a parte do "um passo desengonçado atrás do outro" rs

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