parte IV (o leão covarde)

Ele sempre foi um mistério pra mim. Era difícil conseguir perceber que, por trás daquela faxada corajosa, havia sensibilidade no fundo da alma. Um paradoxo brilhante, eu devo admitir. Mas ele também tinha lá seus pontos poéticos, também tinha ares de criador. Me identifiquei com ele, em primazia, por causa dessa fantasia toda em que ele vivia; por causa dessa mania de, assim como eu, querer desenhar no mundo as coisas que sentia. Intrigante, sensato (talvez nem sempre, mas de Schecter e louco, todo mundo tem um pouco), embriagado de emoções, muitas vezes. Uma metamorfose ambulante. Tanto quanto de imaginação, era feito de ajetivos e exclamações triunfantes, mas tinha um defeitinho irritante: tinha um pouco os pés no chão; nunca se jogava completamente, como eu queria. Mas era bom, formavamos uma boa equipe. Eu, com a alma leve e o coração pesado de bens; e ele, com os pés no chão, sim, mas com a cabeça nas nuvens.

(09.10.2010)

Nenhum comentário:

Postar um comentário